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Policiais de quadrilha que vendia fuzis a Peixão cobravam para investigar para criminosos, diz MP

Policiais e ex-policiais militares investigados por vender fuzis ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro também negociavam investigações clandestinas para ga...

Policiais de quadrilha que vendia fuzis a Peixão cobravam para investigar para criminosos, diz MP
Policiais de quadrilha que vendia fuzis a Peixão cobravam para investigar para criminosos, diz MP (Foto: Reprodução)

Policiais e ex-policiais militares investigados por vender fuzis ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro também negociavam investigações clandestinas para ganhar dinheiro e utilizavam informações sigilosas das forças de segurança para ajudar criminosos, segundo uma investigação da Polícia Federal e do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). De acordo com a apuração, o grupo chegou a tentar obter imagens de câmeras de segurança do estado para beneficiar um miliciano acusado de homicídio. As descobertas fazem parte de uma apuração da PF e do Grupo de Atuação Especializada de Defesa da Integridade e Repressão à Sonegação Fiscal (Gaesf), do MPRJ, contra uma organização criminosa acusada de fornecer armas ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefe do Terceiro Comando Puro (TCP) no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 RJ no WhatsApp Conversas obtidas pelos investigadores mostram que os suspeitos discutiam a realização de investigações particulares, mediante pagamento, e buscavam informações em sistemas policiais para atender interesses de terceiros. Os sete investigados já foram denunciados pelo Ministério Público e se tornaram réus. Entre eles, estão policiais da ativa e ex-PMs que, mesmo depois de expulsos da corporação e presos por outros crimes, conseguiram cargos comissionados na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e no Detran. Venda de investigação 'por fora' para bandidos Uma das conversas identificadas pelo Ministério Público envolve o ex-PM Vitor Hugo Marinho Garcia, conhecido como Batata, apontado como um dos chefes da organização criminosa, e o policial civil Carlos Barnabé Souza. Na troca de mensagens, Vitor Hugo fala sobre a possibilidade de realizar uma investigação particular para um empresário que havia sofrido uma tentativa de sequestro. Segundo o relato, a mulher e o filho do empresário chegaram a ser amarrados pelos criminosos. "De repente vai ter um trabalho pra gente ganhar dinheiro. Um empresário sofreu uma tentativa de sequestro. Amarraram a mulher dele, amarraram o filho. Ele quer fazer uma investigação por fora", diz a mensagem. Para os investigadores, a conversa é um dos indícios de que o grupo explorava a experiência e os contatos de policiais para oferecer serviços clandestinos de investigação. O Ministério Público afirma que, além da venda de armamentos, os integrantes da organização também praticavam extorsões contra criminosos. Carlos Barnabé, policial civil da ativa, é acusado de fornecer informações sigilosas à quadrilha e utilizar o aparato de investigação da Polícia Civil em benefício da organização criminosa. Ele foi denunciado por violação de sigilo funcional e está foragido. Tentativa de ajudar miliciano acusado de homicídio Outro episódio identificado nas investigações envolve o miliciano Gilson Ingrácio de Souza Júnior, conhecido como Juninho Varão. Segundo o Ministério Público, Vitor Hugo procurou um policial militar que tinha acesso aos sistemas de câmeras da Secretaria de Segurança para tentar conseguir imagens que pudessem ajudar o miliciano a se defender de uma acusação de homicídio. A intenção era obter registros que mostrassem Juninho Varão em um restaurante, em determinado dia, e não no local onde o crime teria ocorrido. O episódio é apontado pelos investigadores como mais um exemplo da utilização de contatos dentro das forças de segurança para atender interesses de criminosos. Ex-PMs expulsos conseguiram cargos na Alerj e no Detran A investigação também revelou que integrantes do grupo conseguiram ocupar cargos públicos mesmo depois de terem sido expulsos da Polícia Militar e presos em flagrante por crimes como extorsão e agiotagem. Um deles é Eduardo Thales Lopes Pires, ex-PM que foi expulso da corporação e posteriormente nomeado para um cargo comissionado na Alerj. Ele foi localizado pelos agentes em um condomínio na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. O ex-PM Vitor Hugo Marinho Garcia, apontado como um dos chefes da quadrilha, também ocupou um cargo público. Ele trabalhava na presidência do Detran até maio deste ano, quando foi exonerado pela atual gestão. Vitor Hugo foi preso em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Na casa dele, os agentes encontraram um fuzil, R$ 67 mil em dinheiro e 14 aparelhos celulares. O histórico dos investigados chamou a atenção do Ministério Público. "Chama atenção do Ministério Público o desvio de integrantes formais do Estado para o crime organizado", afirmou o promotor Bruno Humelino, do Gaesf. O promotor destacou ainda que ex-PMs expulsos por crimes graves voltaram a ser presos por extorsão e agiotagem e, mesmo assim, foram nomeados para cargos comissionados no Legislativo e em uma autarquia estadual. Fuzis para Peixão e movimentação milionária Segundo as investigações, a organização criminosa negociou pelo menos 22 armas com o traficante Peixão, entre elas 13 fuzis calibre 5.56. O grupo também teria fornecido granadas e uniformes das polícias Civil e Militar. Outro investigado, Marcel Rodrigues Fernandes, foi preso em um hotel de alto padrão na orla da Barra da Tijuca. No quarto onde estava hospedado, os agentes encontraram um fuzil calibre 7.62. Na residência dele, em Angra dos Reis, na Costa Verde, a polícia apreendeu outro fuzil. Marcel não foi autuado pelas armas porque apresentou à PF registro como colecionador, atirador desportivo e caçador (CAC). Ele ocupou um cargo comissionado na Alerj até outubro do ano passado, com remuneração média de R$ 8 mil mensais. O RJ2 apurou que Marcel estava lotado no gabinete do deputado Felipinho Ravis (PP), que não é investigado. Fuzil foi apreendido em hotel de luxo na Barra Divulgação/PF Marcel também teve um cargo no Detran, do qual foi exonerado em maio. De acordo com a investigação, ele movimentou mais de R$ 33 milhões em cinco anos, valor considerado incompatível com seus rendimentos. O policial militar Johan Borja Portela, lotado no Batalhão Ambiental, também é apontado como integrante do esquema. A Justiça determinou a apreensão de quase 30 veículos e o bloqueio de mais de R$ 250 milhões em bens e valores nas contas dos investigados. Os réus respondem, conforme as acusações atribuídas a cada um, por crimes como tráfico de drogas e armas, extorsão, agiotagem, violação de sigilo funcional, organização criminosa e lavagem de dinheiro. O policial civil Carlos Barnabé e o traficante Peixão continuam foragidos. Alvo da Operação Magen foi preso em um hotel na Barra da Tijuca Reprodução/TV Globo O que dizem os citados A Polícia Militar informou que a Corregedoria da corporação participou da operação e que vai instaurar um procedimento administrativo para apurar a conduta do policial investigado. A PM afirmou ainda que mantém seu compromisso com a lisura da tropa. A Corregedoria da Polícia Civil informou que já instaurou um processo administrativo para apurar a conduta do agente citado na investigação. A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) afirmou que não comenta ações policiais e judiciais que não tenham relação com o Parlamento. O Detran reiterou que os investigados que ocupavam cargos no órgão foram exonerados. O g1 procurou o deputado estadual Felipinho Ravis (PP) e as defesas de Marcel Rodrigues Fernandes, Vitor Hugo Marinho Garcia e Eduardo Thales Lopes Pires, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem. A reportagem não conseguiu contato com as defesas dos demais investigados.